Mìriam I. S. dos S. Simon*
* Nutricionista da equipe
de Pneumologia Pediátrica do Hospital de Clínicas e
mestre em Ciências Médicas pela UFRGS. misantos@hcpa.ufrgs.br
Currículo na plataforma Lattes do CNPq.
Nutrição tem um
papel essencial no tratamento da Fibrose Cística (FC) e pode influenciar na
sobrevida e qualidade de vida1. Estudos a longo termo têm mostrado
um significativo aumento da sobrevida de pacientes com FC entre aqueles com um
estado nutricional normal 2,3. No entanto, a desnutrição é um achado
freqüente em pacientes com FC devido ao balanço energético negativo, ao aporte
nutricional insuficiente e às perdas geradas pela má-absorção.
A desnutrição na FC é multifatorial e está relacionada a progressão da doença. Fatores interdependentes, como deterioração da função
pulmonar, anorexia, vômitos, insuficiência pancreática e complicações biliares
e intestinais são responsáveis pelo aumento das necessidades energéticas, pela
diminuição da ingestão e pelo aumento das perdas com conseqüente perda da massa
magra e depleção da função imunológica4.
Os fatores que
contribuem para a perpetuação do agravamento nutricional podem estar
relacionados ao aumento da necessidade nutricional, redução da ingestão e
aumento das perdas (Quadro 1)5. Cogita-se
também que a disfunção na CFTR levaria a um desperdício de energia. Isto
explicaria a desproporção observada, em alguns pacientes, entre desnutrição
avançada sem uma doença pulmonar tão grave 6.
| Aumento
de perdas
|
Redução da Ingestão |
| Aumento das perdas
intestinais
Insuficiência
pancreática
Metabolismo
de sais biliares
Doença Hepatobiliar
Refluxo gastroesofágico (RGE)
Aumento das perdas urinárias
Diabetes mellitus
Aumento da necessidade
nutricional
Doença
pulmonar
Defeito
primário
Gravidez, Lactação |
Diminuição da ingestão
Anorexia
Transtorno
alimentar
Depresão
Esofagite
(secundária a RGE)
Restrição de gordura iatrogênica
Estresse psicossocial |
Fonte: adaptado da referência Durie e Pencharz, 19895.
Quadro 1 - Desequilíbrio energético em FC
Nutrição
e má-absorção
Dentre as manifestações que levam à má-absorção podemos
enumerar: insuficiência pancreática, doença crônica do fígado e das vias biliares.
O bloqueio intestinal pelo muco espesso pode estar presente, contribuindo para
a má-absorção 7.
A insuficiência pancreática é precoce e se manifesta nos
primeiros meses de vida. A falta de enzimas digestivas pancreáticas leva
rapidamente à má-absorção de gordura, causando esteatorréia.
A perda exagerada de lipídios leva à má-absorção de vitaminas A, D, E, K e
Cálcio. A insuficiência hepática agrava a esteatorréia por lançar insuficientes quantidades de bile no intestino para emulsificação
das gorduras.
Os sintomas digestivos podem manifestar-se com fezes
volumosas, espumosas, pálidas, devido à presença de gorduras e muito fétidas em
decorrência dos fenômenos putrefativos resultantes da
ação bacteriana sobre as proteínas. A terapia de reposição enzimática
transforma a aparência das fezes e a freqüência das evacuações, permitindo, uma
boa recuperação do crescimento caso existisse um retardo anterior ao
diagnóstico. No momento do diagnóstico, muitos pacientes não apresentam
qualquer problema de crescimento, pois um enorme apetite associado a uma grande
ingestão de alimento pode compensar a má absorção durante algum tempo 8.
Nutrição
e desequilíbrio energético
Durie e Pencharz (1989)5 propuseram um modelo que
tenta explicar a causa do balanço energético negativo em pacientes com FC.
(Figura 1)
Esse
modelo ajuda a definir a rede de variáveis independentes que dão origem a
desnutrição crônica com déficit de crescimento desses pacientes.
Figura 1 -
Fatores interdependentes que podem aumentar risco de déficit energético, perda
de peso e deterioração da função pulmonar.
A perda
nutricional por eliminação de proteína no escarro tem sido estimada por Wooton et al. (1991) em 1 a 5% do
total de energia ingerida e até 14% do total de perdas nitrogenadas9. A perda de sódio é
importante e a depleção subclínica de sal pode
resultar em crescimento prejudicado, principalmente na infância10. O DM, se não
diagnosticado ou mal controlado, pode aumentar as perdas energéticas devido à glicosúria11.
Existe uma elevação do gasto energético em repouso em 110 a
130% causada por vários fatores12.
Há uma clara relação entre o agravamento da doença pulmonar e o aumento do
gasto energético por aumento do trabalho respiratório, efeito de algumas
medicações (broncodilatadores) e o gasto energético
da atividade inflamatória crônica. Algumas situações metabólicas como DM associado à FC, cursam com aumento do gasto energético
basal, de tal forma que uma estabilização na curva de crescimento pode ser a
primeira manifestação da alteração no metabolismo dos hidratos de carbono. Além
disso, pacientes homozigotos para a mutação DF508
apresentam uma elevação na taxa metabólica de repouso, isto explicaria o
aumento da necessidade nutricional associada ao defeito primário, ou seja, a
proteína CFTR, codificada pelo defeito genético, seria uma molécula consumidora
de ATP 6.
A redução da ingestão calórica está relacionada à anorexia
por infecção e inflamação crônica, existência de complicações digestivas como a
esofagite, a síndrome da obstrução intestinal distal e, em alguns casos, a
existência de transtornos da conduta alimentar. A pressão da mídia para uma
alimentação saudável, com uma dieta pobre em gordura e açúcar, bem como
conceitos inapropriados da imagem corporal, enfraquece o uso de suplementos
dietéticos, causando problemas de comportamento alimentar, particularmente no
início da adolescência4.
Nutrição e crescimento
Os pacientes portadores de FC, geralmente apresentam peso ao
nascimento, em média, inferior ao dos lactentes saudáveis13. Esta informação faz pensar que em certos casos os
fatores essenciais para um crescimento normal já teriam sido prejudicados
durante a vida intra-uterina. Os pacientes portadores de FC têm geralmente, um
déficit ponderal no momento do diagnóstico e alguns, dentre eles, também têm
pequena estatura. Quando a má absorção é adequadamente tratada e as infecções
prevenidas, a maioria dos pacientes reassumem um
crescimento apropriado que prossegue por anos e só afastam de suas curvas de
peso e estatura em caso de doença pulmonar. Dados do United Kingdom Cystic Fibrosis Registry revelou que
a média do escore z de peso de meninos até 10 anos de idade foi de –0,25 à –0,5, após eles apresentavam um declínio no índice de massa
corpórea (IMC). As meninas apresentavam um escore z de –0,5,
tendo uma queda no IMC após os 5 anos. Após os 10 anos, houve um progressivo
declínio no escore z de peso e estatura, provavelmente devido ao atraso da
puberdade14. O aumento de
peso de numerosos pacientes desacelerou-se durante a pré-puberdade, sendo
difícil saber, de um ponto de vista clínico, se este distúrbio precede ou se é
uma conseqüência precoce do acometimento pulmonar11.
Apesar dos
avanços do tratamento clínico e nutricional, a Cystic Fibrosis Foundation, em 2004,
registrou 15,7% dos pacientes abaixo do percentil 5 para peso e 16,3% para estatura15. O Registro
Latino Americano de FC demonstra que mais de 50% dos pacientes se encontram
abaixo do percentil 3 de
peso e 46,7%, na relação estatura para idade16.
Nutrição e função pulmonar
O estado nutricional do paciente tem uma importante relação
com a evolução da doença pulmonar a longo prazo17, estando relacionado com a qualidade de vida e a
sobrevida desses pacientes18 .
A taxa de mortalidade em pacientes com FC é
significativamente dependente da função pulmonar, expressa como Capacidade
Vital Forçada (CVF) e Volume Expiratório Forçado no primeiro segundo (VEF1).
Estudos de Kerem et al.
(1992)18 mostraram que o
melhor preditor de mortalidade foi a função pulmonar, especialmente VEF1 que está fortemente relacionado
com sobrevida.
A progressão da
doença pulmonar eleva a demanda energética pelo aumento do trabalho
respiratório devido à obstrução progresiva do fluxo
aéreo. O processo inflamatório e as infecções recorrentes são responsáveis pela
liberação de citocinas pró-inflamatórias que
contribuem com a elevação do gasto energético basal 3,19,20.
Portanto, o aumento
da necessidade energética, juntamente com a diminuição da ingestão
proporcionada pelo estado inflamatório crônico, favorece a perda de peso e a
desnutrição21.
A acentuada perda de peso pode levar à diminuição de massa
magra, com conseqüências sobre os músculos respiratórios e elasticidade
pulmonar, levando a uma diminuição da força de contração do diafragma e da
força e resistência dos músculos respiratórios19. A desnutrição leva ainda a uma diminuição da
atividade física, da tolerância ao exercício e conduz a uma deterioração da
função imunológica e a um déficit de antioxidantes que favorece o estabelecimento de um estado de infecção e inflamação22 .
A perda de peso e o dano pulmonar decorrente da doença de
base formam um ciclo que só pode ser interrompido modificando o fator perda de
peso ou doença de base. E a dúvida a ser respondida diz respeito a desnutrição como causa ou conseqüência da diminuição da
função pulmonar.
Tratamento
Os principais
objetivos do tratamento são prevenir a progressão da doença pulmonar e manter
uma nutrição e crescimento adequado. A detecção precoce de uma possível falha
de crescimento e desenvolvimento permite uma intervenção apropriada e melhores
chances de reabilitação nutricional implicando no sucesso do tratamento e uma
melhor qualidade de vida.
O estado
nutricional dos pacientes com FC deve ser criteriosamente avaliado a fim de
estabelecer medidas terapêuticas nutricionais que possam, se possível, prevenir a desnutrição. Os Consensos Americano e Europeu de
Fibrose Cística estabelecem critérios mais rigorosos para classificação do
estado nutricional (Tabela 1) com o objetivo de alertar os profissionais de
saúde para tomar medidas mais drásticas antes do quadro de desnutrição estar
instalado 11,23.
A recomendação
nutricional para os pacientes com fibrose Cística é correspondente à 120-150% da ingestão recomendada para indivíduos sadios
(RDA), sendo encorajados a incluírem na dieta alimentos com densidade calórica
elevada e suplementos nutricionais21.
O suporte
nutricional é parte integrante do tratamento da Fibrose Cística influenciando
significativamente no prognóstico desses pacientes à medida que impede a
instalação do quadro de desnutrição 23,24. A manutenção de um estado
nutricional normal é fundamental, pois já está bem demonstrada a correlação
entre desnutrição e severidade da doença pulmonar, que é o principal fator
negativo nas taxas de sobrevida desses pacientes 3,4,17,24.
Tabela 1. Classificação do
estado nutricional em Fibrose Cística
Estado % P/E Percentil P/E Percentil IMC IMC
Nutricional (0 – 2 anos) (2 – 20 anos) (2-20
anos)
Normal ³ 90 % >
P25 > P25 20-25
Risco ³ 90 % P10 –P25 P10
–P25
perda de
peso
ou peso
estacionado
Desnutrição <
90 % < P10 <
P10 <
19
Peso estacionado: não ganho
de peso por 3 meses em pacientes abaixo de 5 anos de
idade ou não ganho de peso por 6 meses em pacientes acima de 5 anos de idade.
Fonte: Sinaasappel et al, 2002 11 e Borowitz et al, 2002 23
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